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Opinião

A metáfora do palhaço

O texto é longo, mas acho que vale a pena.

Como muitos de vocês sabem, ontem foi comemorado o Dia do Palhaço.

Ao contrário do que muitos pensam, muita gente foi ou ainda é palhaço por profissão, ou seja, ganham a vida com isso.

Mas.. quem é o público alvo de um palhaço? Seriam mesmo as crianças?

Muitas crianças tem medo de palhaços. Já tive a oportunidade de ver em lojas de brinquedos ou em restaurantes, as crianças quase perderem o fôlego de tanto chorar, ao verem um palhaço.

Que coisa incrível! Mas por que isso?

Alguns tentariam explicar dizendo que o Fofão era um palhaço, mas dava medo. Chucky não deixa de ser um palhaço e é assassino. Ladrões se vestem de palhaços para assaltarem bancos.

Pronto! Acho que já há motivos suficientes para as crianças terem medo de palhaço.

Mas pensando desta forma, qual o foco dos palhaços, então?

Me arrisco a dizer: os casais.

Prestem atenção no fato que relato a seguir:

Hoje pela manhã, estava eu e minha namorada, no carro, parados no trânsito em um cruzamento com a Av. Paulista, aqui em São Paulo.

Já estamos acostumados com lavadores de vidros, vendedores de balas e deficientes de modo geral nos semáforos paulistanos.

Porém, desta vez, a coisa foi um pouco diferente.

Do outro lado da calçada, cruzou em alta velocidade um palhaço, que por sinal, estava muito bem caracterizado. Tinha em uma das mãos, uma bolsa com o zíper aberto e cheio de coisas.

Na hora pensei: “Assalto”!!!.

Mas não, o palhaço que estava alí para fazer suas “graças” procurava um carro com casal, pois seu “número” tinha como público alvo, um casal de pombinhos.

Iniciou então “seu número” com uma série de expressões e ações com as mãos que demonstravam o sentimento de carinho, amor, cumplicidade e companheirismo.

Embora o “espetáculo” ocorria exatamente em frente ao meu carro, inúmeros eram os pedestres e motoristas que assistiam (sem pagar, é claro) o palhaço e suas peripécias.

Se eu fiquei encantado com aquilo, imaginem minha namorada!!!!

E é exatamente esse o foco do palhaço.

Qual namorada que não ficaria sensibilizada com aquilo e não pressionaria seu namorado a contribuir com uma pequena quantia?

E qual o namorado que não contribuiria diante daquela situação, com todo mundo olhando e esperando a minha aprovação diante do palhaço com cara de piedade, que mais alguns minutos conseguiria fazer com que lágrimas saissem de seus olhos?

Por fim, quando todos já estavam fascinados com o palhaço, a bolsa que ele trazia é aberta e então ele começa a jogar inúmeras almofadas de coração e flores, mais especificamente rosas, contra o vidro do carro. Era uma cena de novela. Neste momento, até os mais “sérios” se renderam ao palhaço.

A peça que durou algo em torno de dois minutos, ainda terminaria com três placas colocadas no vidro, que lado a lado, formavam a frase EU TE AMO!!!

Com o término da peça, me senti “obrigado” a contribuir com o artista, pois eu me encontrava sob os olhos de minha namorada, aguardando uma reação positiva de minha parte.

Outros motoristas chamavam o palhaço com gritos e buzinhas para poderem contribuir também.

Que aula de marketing me deu aquele palhaço do semáforo!!!

Vou fazer uma análise bastante pessoal, que talvez vocês não concordem. Vamos lá:

Primeiramente, o cara deve ter pensado como ele poderia ganhar dinheiro, vestido de palhaço. Palhaço trabalha com sentimento, alegria e saudosismo.

Em um segundo momento, ele pensou no diferencial competitivo dele, em relação aos seus concorrentes do semáforo. Resolveu então fazer um “número” de mais ou menos dois minutos e que justificaria um recebimento de dinheiro pelo trabalho.

Escolheu ainda, um semáforo que fica próximo à inúmeros conjuntos comerciais e poucas crianças estavam dentro dos carros. Se atentou também para um local onde o tempo de farol fechado, fosse superior ao tempo de “número + contribuição espontânea”.

Depois disso, o palhço pensou no público alvo. Escolheu casais. Por esse motivo, que, quando nos viu, partiu como um jato na direção do nosso carro. Ele tinha que “correr” contra o tempo.

A partir daí, ele trabalha com a emoção, particularidade das mulheres. Para isso, leva em sua bolsa, as ferramentas de trabalho.

Ao final, as almofadas e rosas arremessadas contra o vidro do carro, fazem com que você já olhe para a carteira ou pelo menos que você seja levado apensar onde estão quelas moedas que foram o troco do remédio comprado na noite anterior.

Só para constar: O PALHAÇO NÃO DISSE UM PALAVRA E NEM PEDIU DINHEIRO!!!

Acho que a história do palhço contada acima, serve com uma metáfora. Quantos anunciantes e agências não planejam a ação antes de colocarem a cara na rua e depois, obviamente, a coisa não dá certo?

Esse palhaço de hoje, vai longe.

 

 
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Filipe Crespo

The author Filipe Crespo

Publicitário formado e Mestre em Administração com ênfase em Finanças. Profissional de mídia certificado pelo Grupo de Mídia de São Paulo construiu carreira em agências como Ogilvy, Africa, Y&R, JWT, W/McCann e Lowe, atendendo clientes como: P&G, Unilever, BRFoods, LG, Bradesco e Mastercard. Atualmente é Sócio Diretor do Creativosbr e Consultor de Mídia do McDonalds no Brasil. É idealizador do Amigos do Mercado. É também professor de Planejamento de Mídia na FECAP, na FAAP e no MBA do Mackenzie.

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