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Opinião

Grandes agências e médios prazeres pedem novos caminhos

rota

Tenho horror à gente que não se permite mudar de opinião.

Pessoas que até já mudaram de ideia sobre algumas coisas, mas que preferem não tornar público para não ter que admitir que reavaliou e que agora pensa diferente.

Nizan tem uma frase que sempre repetia pelos corredores da agência: “Eu não tenho compromisso com o erro”.

É mais ou menos isso.

Certa vez, um diretor me perguntou qual era o meu objetivo dentro da mídia. Respondi: “Ser o melhor mídia do Brasil, VP dessa agência e quem sabe, Presidente do Grupo de Mídia”.

Resposta de um sonhador, cheio de garras e vontades. Mais emoção do que razão naquelas palavras ditas.

Mas trabalhei, aprendi, apanhei, cresci.

No dia que eu  pedi demissão dessa mesma agência, chamei o mesmo diretor e disse a ele: “Se hoje tu me perguntasse a mesma coisa eu diria que desejaria ser o melhor profissional de mídia do Brasil na visão dos meus subordinados, dos meus clientes e dos meus superiores. Nessa ordem”.

As pessoas mudam e isso é bacana!

Talvez nem todos saibam, mas meu início de carreira não foi nada fácil.

Me formei em uma faculdade no interior do Estado, onde a realidade do mercado publicitário naquela região me distanciava do que acontecia no eixo Rio-São Paulo.

Vinha à São Paulo uma vez por mês, de ônibus de linha e com meus envelopes de currículos na mão, percorria a pé os bairros do Itaim, Vila Olímpia e Pinheiros.

Sem conhecer gente no mercado, deixava meu currículo impresso na portaria dos luxuosos prédios em que abrigavam as principais agências do país. Por inúmeras vezes, ao entregar o currículo e virar de costas, escutava o amassar ou mesmo o rasgar do envelope que acabara de ser entregue.

Ainda estudante, fui em umas três ou quatro edições do Maximídia com o crachá de outra pessoa. Como? Vinha pra São Paulo, ia pra porta do evento e ficava lá esperando algum executivo sair. Dizia a ele que eu era estudante e que não tinha como desembolsar aquela grana toda. Ele me dava o crachá dele e eu entrava. Pois é! Queria respirar criatividade, estar entre os grandes profissionais, viver um sonho.

Mas certo dia, as coisas começaram a acontecer. Talvez a receita devesse conter bastante de dedicação e preparo, somado à uma pitada de sorte e algumas colheres de oportunidade e de repente eu estava dentro de grandes agências, fazendo aquilo que desejei por anos: mídia.

Nesse caminho, percorri agências grandiosas, atuei em campanhas prazerosas e conheci gente boa ‘pacas’.

Na Ogilvy tive chefes maravilhosos que me deram a oportunidade de propor, questionar, participar. Vivi a publicidade de verdade ali.

Fui então pra África. Gosto sempre de dizer uma coisa sobre essa agência: a mesma fama que tira gente de lá é a que leva gente pra lá. Uma agência que trabalha no limite. Isso faz você crescer profissionalmente, muito rápido. Aos mais próximos, digo sempre que talvez tenha sido a agência que mais aprendi dentre todas que passei.

Na Y&R tive rápida passagem à convite de uma pessoa de um coração enorme (única que cito aqui) e que mesmo quando eu estava longe, fazia questão de me acompanhar e me dar bons conselhos: Gustavo Gaion. Um mentor pra mim. Sempre que o vejo, agradeço tudo o que fez e faz por minha carreira. Duvida? Pergunte a ele se não é verdade!

A passagem pela JWT me deu a oportunidade de trabalhar com um player de varejo. Queria entender aquela rotina maluca, os prazos apertados. Ué, todo mundo tem o seu momento de masoquismo. Me deixa.

Em 2014, recebi o convite para assumir a gestão da Central de Mídia de Bradesco, na W/McCann. Momento de Olimpíadas, cliente do setor financeiro, alto investimento. Muita gente pensa que não, mas ali tive oportunidade de aprimorar muito a minha técnica de mídia. Ainda que tivéssemos uma série de divergências, tive um chefe que foi o melhor negociador de mídia que já conheci. Trabalhando com ele, aprendi muita coisa e evolui muito em vários aspectos profissionais.

Me faltava o topo. Me faltava assumir um cargo de Direção em uma agência. A oportunidade surgiu em 2017. Fui para a aktuellmix, uma das maiores agências de live marketing do país. Ali, tomei um susto. Descobri na pele, que a mídia, que é demais importante, é somente uma das partes de um todo bastante mais complexo de um cliente. Trabalhar ali me deu melhor visibilidade do negócio do cliente. Tive experiências muito bacanas, conheci profissionais mais 360 e fica um carinho especial ao trabalho realizado com “dr. Consulta”, onde ajudamos através de boa comunicação, a mudar o status do cliente.

Missão cumprida? Talvez.

Rol de boas agências, boas campanhas na rua, cliente gigantes, pessoas fodas.

Trabalhei com Nizan, Olivetto, Eco, Mohallem e até Justus. Esse último prometo apagar antes de postar.

Percorri a hierarquia dentro da minha atividade como deve ser. Cheguei onde queria, mas… isso não era mais sinal de felicidade.

Agências têm sempre os mesmos problemas. Agências tradicionais possuem estruturas muito quadradas e não andaram na mesma velocidade das necessidades dos clientes.

Nos últimos anos andei pensando muito nas coisas. Fruto de um olhar mais técnico, as agências já não resolvem boa parte dos problemas de comunicação de seus clientes.

Vi por diversas vezes marcas importantes precisando de 4, 5, 6 agências para terem todas as suas necessidades atendidas.

Isso me fez, muitas vezes, perder o tesão no meio de um job. Publicidade tem que ter tesão, senão você pira, não entrega o melhor de si.

Vivemos um mercado de agências apegadas a um formato de receita que não sabemos até onde dura. E mais: o quanto isso é nocivo à estratégia do cliente anunciante?

Hora de repensar a carreira. Hora de mudar. Hora de tentar fazer de um jeito onde eu possa ser mais relevante para meus clientes.

Com a experiência adquirida aqui e acolá trabalhando com desafiadores clientes, agências enormes e pessoas demais técnicas, acho que posso seguir sozinho daqui por diante, sem me perder.

Não estou abandonando a profissão, mas agora quero seguir com o meu negócio.

Quero focar em clientes pequenos e médios que possuem desafios tanto como as grandes contas que atendi.

São empresas muitas vezes esquecidas pelo mercado e que também precisam de um olhar profissional técnico de marketing e comunicação.

Quero poder entregar competência, atenção, dedicação e um trabalho que não se baseia no óbvio ou nas velhas regras. Status? Vamos deixar de lado.

Montei um bom time para isso. Um time novo, sem vícios profissionais e que pira em pensar.

O creativosbr é uma agência pequena. É familiar. É de resultados. Tem gente competente pra entregar gestão de redes sociais, marketing de busca, consultoria estratégica de marca, criação, compra e controle de mídia, assim como treinamento e desenvolvimento para equipes.

Além de agência, somos portal de comunicação para jovens profissionais e estudantes, legado trazido do Blog do Crespo e que, por ser nossa parte de nossa missão, sempre será levado a diante.

O creativosbr é o meu novo sonho. Fruto de madrugadas sem dormir. Não foram duas ou três. Foram centenas de madrugadas em claro montando esse sonho.

Se quiser conhecer a gente, entra no site, segue a gente no Instagram, no Twitter e no Facebook.

Agora então irei dividir o tempo junto com as aulas de Mídia e Planejamento de Mídia na FAAP e na FECAP, atividades outras que amo fazer. Além dessas, ainda acumulo com muito orgulho a função de coordenador de curso na Fecap e de sócio-idealizador do Amigos do Mercado.

As grandes agências foram importantes, mas me trouxeram médios prazeres. Hora de seguir novos caminhos.

Tags : agênciacreativosbrmídiaprofissãopropagandapublicidade
Filipe Crespo

O autor Filipe Crespo

Publicitário e Professor Universitário. Diretor de Mídia e Professor titular de Mídia e Planejamento de Mídia da FECAP e da FAAP. Formado pela Univ. Católica de Santos e mestre pela Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado. Trabalhou com grandes anunciantes em agências como: W/McCann, JWT, África, Ogilvy, Y&R e Lowe. É Diretor Geral de Mídia da aktuellmix. Fundador e mantenedor do creativosbr.

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